terça-feira, 26 de agosto de 2014

O tempo de uma poética feminista


Tununa Mercado

Há uns dez anos vi em Avignon, nas representações que se fazem às margens do Festival de Teatro, uma obra feita por mulheres com o título “On chuchote”, “Sussurramos”. Era a atuação de uma cena aparentemente sem riscos: uma conversa cotidiana entre mulheres com seus temas de rotina, as crianças, as doenças, as comidas, os pesares do casamento, as fantasias e as dores de amor. Esse corpo de relato tinha, no entanto, uma poderosa atração porque, sendo quase mudo, ou pelo menos não deixando identificar o que se dizia, tornava significante o anódino e sem destaque; através da dança, da mímica e dos sons, se articulava um discurso emocionado que dava conta de um forte poder de reconhecimento e se erigia uma sorte de alternativa: o sussurro era enaltecido como possibilidade de comunicação. É preciso fazer pouco esforço para imaginar a extensão ilimitada do sussurro no universo feminino; uma vez solto, seus ecos próximos, a suavidade de seu roçar junto ao ouvido, a leve expulsão de ar através dos lábios que se converte em assobio ao ritmo de um trabalho manual, o volume baixo do diálogo com diferentes ausências, a respiração ofegante do alumbramento, pouco a pouco ocupam todo o espaço e se apoderam de qualquer ressonância. É a oração murmurada à noite para salvar-se da morte, é falar sozinha, respirar em vez de dizer as palavras, fazer sons com o puro pneuma, confessar o amor ao ser amado e confiá-lo ao ouvido de outra mulher.
Nesta reclusão feminina se fala baixinho. Subtrair-se ao ouvido dos demais é a vantagem do sussurro e a vertigem do clandestino, e talvez não haja nada que suscite mais violência que esse confinamento das palavras no meio tom ou na surdina, mais violência ainda que a que poderia provocar um silêncio obediente. Mas, nesta história, dizer em voz baixa não bastava; valer-se de um rumor que corre boca a boca, sotto voce, arma obrigadamente sutil, apenas serviu para naturalizar e convalidar a ação dos Grandes Silenciadores sobre as mulheres.
No local disputado da enunciação – lugar do Patriarca e da Matriarca – começaram-se a ouvir vozes que aumentavam sensivelmente o tom até fazer do murmúrio acostumado, ou do soluço afogado, uma insuportável estridência. Um novo sujeito disputava esse lugar e, para isso, tinha que falar com uma voz bem alta e múltipla. Esse foi o momento, creio, da palavra das mulheres que o feminismo deixou sair, uma fala clamorosa que cobriu os reclames que tentavam calá-la. Parece-me, a esta altura, que se apoderar da palavra, vencer o medo de se fazer ouvir no espaço público, reivindicar a gritos, foi então o trabalho de resistência ao poder em todas as suas manifestações.
Colocar-se no lugar do sujeito da enunciação usurpado pelo homem não era, no entanto, transformar o modelo, era apenas mimetizar-se com uma maneira e um instrumento. Falava uma mulher, falava por todas, mas aceder ao uso da palavra por haver subido o volume não era dar-se estritamente um discurso, quanto mais era, e é, reivindicar um lugar, dizer aqui estou e estas são minha denúncia e minha demanda. Fizemos, pois, política. E a aprendizagem exigiu árduos exercícios de concentração: diante do espelho, na solidão do quarto próprio ou mesmo alheio, o discurso privado resistia a devir político. Falar em público é desouvir o chamado ao silêncio, mas é também aceitar as condições autoritárias do jogo político “masculino”: falar mais alto, interromper, discursar, ditar diretrizes, atribuir a si ser a voz das humilhadas, “conscientizar” por se acreditar mais conscientes, fazer calar o outro ou a outra com repetições e redesdobramentos de sedução-dominação, cativar auditórios, ganhar espaços de grandes e pequenos poderes, penetrar as bases, roubar talentos alheios, figurar. Fascinar-se com a política, mimetizar os políticos, etc., etc.
Não sei se estamos em outro estágio do uso da palavra. A reivindicação não cessa porque nada parece ter sido ganho, embora muito se tenha obtido, e não se vê muito bem a forma de reinstalar na estratégia feminista – mais limpa porque utópica, mas fortemente mais ingênua precisamente porque mais utópica – a ideia de uma vida diferente, de um novo modo de pensar e de existir, de um novo modo de falar, que era o essencial. Talvez haja lugar para um exercício feminista pouco experimentado: escutar o que diz o sussurro de novas mulheres e apostar em que a política, essa palavra plural da reivindicação, saia agora dessas bocas com outros ecos e outras modulações, distintas inclusive das do modelo que o feminismo copiou.
Como as teatristas marginais de Avignon, intuo que o refluxo deve estar se deixando sentir em muitas feministas e, por certo, também em mulheres que pensam em estratégias de mudança: o ruído do político às vezes não deixa entender o que se quer dizer, e embora o silêncio nunca tenha sido concebido como uma arma, somente em silêncio se pode pensar e voltar a conferir um sentido a uma revolução, a das oprimidas, que muito gravitou na consciência do mundo neste século. O que disse quem pôde se fazer ouvir já ganhou terreno e falar em público talvez tenha deixado de ser um obstáculo, mas também de ser um recurso, para proferir na praça a mercadoria da reivindicação feminista. Seria o caso agora de retornar, como as teatristas marginais de Avignon, às fontes supostamente femininas, onde se sussurram os desvelos. E com essas meias vozes tentar reconhecer-se nas novas figuras que esses vinte anos necessariamente armaram. Prestar atenção, ressignificar e iniciar um texto feminista que, por fim, se escreva com o máximo desígnio pela frente: fazer de nossas vidas uma poética. Ir da política a uma poética feminista das mudanças.


Buenos Aires, novembro de 1990.  

Tradução: Clarisse Lyra