Tununa Mercado
Há uns dez anos vi em Avignon, nas representações
que se fazem às margens do Festival de Teatro, uma obra feita por mulheres com
o título “On chuchote”,
“Sussurramos”. Era a atuação de uma cena aparentemente sem riscos: uma conversa
cotidiana entre mulheres com seus temas de rotina, as crianças, as doenças, as
comidas, os pesares do casamento, as fantasias e as dores de amor. Esse corpo
de relato tinha, no entanto, uma poderosa atração porque, sendo quase mudo, ou
pelo menos não deixando identificar o que se dizia, tornava significante o
anódino e sem destaque; através da dança, da mímica e dos sons, se articulava
um discurso emocionado que dava conta de um forte poder de reconhecimento e se
erigia uma sorte de alternativa: o sussurro era enaltecido como possibilidade
de comunicação. É preciso fazer pouco esforço para imaginar a extensão
ilimitada do sussurro no universo feminino; uma vez solto, seus ecos próximos,
a suavidade de seu roçar junto ao ouvido, a leve expulsão de ar através dos
lábios que se converte em assobio ao ritmo de um trabalho manual, o volume
baixo do diálogo com diferentes ausências, a respiração ofegante do
alumbramento, pouco a pouco ocupam todo o espaço e se apoderam de qualquer
ressonância. É a oração murmurada à noite para salvar-se da morte, é falar
sozinha, respirar em vez de dizer as palavras, fazer sons com o puro pneuma,
confessar o amor ao ser amado e confiá-lo ao ouvido de outra mulher.
Nesta reclusão feminina se fala baixinho.
Subtrair-se ao ouvido dos demais é a vantagem do sussurro e a vertigem do
clandestino, e talvez não haja nada que suscite mais violência que esse
confinamento das palavras no meio tom ou na surdina, mais violência ainda que a
que poderia provocar um silêncio obediente. Mas, nesta história, dizer em voz
baixa não bastava; valer-se de um rumor que corre boca a boca, sotto voce, arma obrigadamente sutil, apenas
serviu para naturalizar e convalidar a ação dos Grandes Silenciadores sobre as
mulheres.
No local disputado da enunciação – lugar do
Patriarca e da Matriarca – começaram-se a ouvir vozes que aumentavam
sensivelmente o tom até fazer do murmúrio acostumado, ou do soluço afogado, uma
insuportável estridência. Um novo sujeito disputava esse lugar e, para isso,
tinha que falar com uma voz bem alta e múltipla. Esse foi o momento, creio, da
palavra das mulheres que o feminismo deixou sair, uma fala clamorosa que cobriu
os reclames que tentavam calá-la. Parece-me, a esta altura, que se apoderar da
palavra, vencer o medo de se fazer ouvir no espaço público, reivindicar a
gritos, foi então o trabalho de resistência ao poder em todas as suas
manifestações.
Colocar-se no lugar do sujeito da enunciação usurpado
pelo homem não era, no entanto, transformar o modelo, era apenas mimetizar-se
com uma maneira e um instrumento. Falava uma mulher, falava por todas, mas
aceder ao uso da palavra por haver subido o volume não era dar-se estritamente
um discurso, quanto mais era, e é, reivindicar um lugar, dizer aqui estou e
estas são minha denúncia e minha demanda. Fizemos, pois, política. E a
aprendizagem exigiu árduos exercícios de concentração: diante do espelho, na
solidão do quarto próprio ou mesmo alheio, o discurso privado resistia a devir
político. Falar em público é desouvir o chamado ao silêncio, mas é também
aceitar as condições autoritárias do jogo político “masculino”: falar mais alto,
interromper, discursar, ditar diretrizes, atribuir a si ser a voz das
humilhadas, “conscientizar” por se acreditar mais conscientes, fazer calar o
outro ou a outra com repetições e redesdobramentos de sedução-dominação,
cativar auditórios, ganhar espaços de grandes e pequenos poderes, penetrar as
bases, roubar talentos alheios, figurar. Fascinar-se com a política, mimetizar
os políticos, etc., etc.
Não sei se estamos em outro estágio do uso da
palavra. A reivindicação não cessa porque nada parece ter sido ganho, embora
muito se tenha obtido, e não se vê muito bem a forma de reinstalar na
estratégia feminista – mais limpa porque utópica, mas fortemente mais ingênua
precisamente porque mais utópica – a ideia de uma vida diferente, de um novo
modo de pensar e de existir, de um novo modo de falar, que era o essencial.
Talvez haja lugar para um exercício feminista pouco experimentado: escutar o
que diz o sussurro de novas mulheres e apostar em que a política, essa palavra
plural da reivindicação, saia agora dessas bocas com outros ecos e outras
modulações, distintas inclusive das do modelo que o feminismo copiou.
Como as teatristas marginais de Avignon, intuo que o
refluxo deve estar se deixando sentir em muitas feministas e, por certo, também
em mulheres que pensam em estratégias de mudança: o ruído do político às vezes
não deixa entender o que se quer dizer, e embora o silêncio nunca tenha sido
concebido como uma arma, somente em silêncio se pode pensar e voltar a conferir
um sentido a uma revolução, a das oprimidas, que muito gravitou na consciência
do mundo neste século. O que disse quem pôde se fazer ouvir já ganhou terreno e
falar em público talvez tenha deixado de ser um obstáculo, mas também de ser um
recurso, para proferir na praça a mercadoria da reivindicação feminista. Seria
o caso agora de retornar, como as teatristas marginais de Avignon, às fontes
supostamente femininas, onde se sussurram os desvelos. E com essas meias vozes
tentar reconhecer-se nas novas figuras que esses vinte anos necessariamente
armaram. Prestar atenção, ressignificar e iniciar um texto feminista que, por
fim, se escreva com o máximo desígnio pela frente: fazer de nossas vidas uma
poética. Ir da política a uma poética feminista das mudanças.
Buenos
Aires, novembro de 1990.
Tradução: Clarisse Lyra